Coalizão de organizações ambientais apresenta 14 denúncias contra JBS a órgãos reguladores da Europa; empresa diz que não teve acesso ao conteúdo
Fachada da empresa JBS em Goiás Wildes Barbosa/O Popular A Coalizão Jurídica Transnacional (Transnational Legal Coalition — TLC) apresentou, nesta quarta-f...
Fachada da empresa JBS em Goiás Wildes Barbosa/O Popular A Coalizão Jurídica Transnacional (Transnational Legal Coalition — TLC) apresentou, nesta quarta-feira (4), 14 denúncias por suspeita de lavagem de dinheiro contra a JBS, financiadores e prestadores de serviços da empresa em quatro países europeus. As notificações foram encaminhadas a agências reguladoras na Holanda, na Alemanha, na Irlanda e no Reino Unido. As denúncias apontam uma suposta relação da empresa com o desmatamento ilegal na cadeia de abastecimento de carne bovina, inclusive em terras indígenas. Um levantamento usado para embasar as acusações associa fornecedores diretos e indiretos da JBS a cerca de 6,6 milhões de hectares com registros de desmatamento desde 1988. Procurada, a JBS afirma que não teve acesso à íntegra do conteúdo das denúncias. Em nota enviada ao g1, a empresa diz que monitora fornecedores de gado na Amazônia desde 2010 com imagens de satélite e georreferenciamento. A JBS sustenta que 'bloqueia automaticamente fazendas com desmatamento ilegal, áreas embargadas, sobreposição com terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação, ou trabalho análogo ao escravo'. (Leia a nota na íntegra abaixo). Embora o levantamento considere registros de desmatamento entre 1988 e 2026, a maior parte da devastação identificada ocorreu antes de julho de 2008. Nas propriedades de fornecedores diretos da JBS, 98% da área desmatada foi derrubada entre 1988 e julho de 2008. Entre os fornecedores indiretos, que abastecem outras fazendas antes de o gado chegar à empresa, esse percentual foi de 96%. Além da produtora de carne, as denúncias têm como alvo 12 de seus principais financiadores, além de advogados e contadores. A TLC reúne organizações jurídicas, ambientais e de investigação que buscam coordenar ações jurídicas em diferentes países contra empresas e instituições financeiras envolvidas em possíveis violações ambientais. Agora no g1 Para Octavio Ferraz, advogado e professor de Direito no King’s College London, que faz parte da coalizão, o objetivo é levar às autoridades responsáveis pela supervisão de instituições financeiras evidências sobre possíveis riscos associados à cadeia de fornecedores da JBS no Brasil. “A ideia de usar a lei de lavagem de dinheiro para crime ambiental é nova. Essa lei foi feita para outros tipos de crime, como corrupção e tráfico de drogas. A inovação dessas ações é exatamente abrir uma nova frente e usar uma lei que já é conhecida para tentar combater o crime ambiental”, afirma. A tese é que, diante de indícios de que recursos possam estar ligados a crimes ambientais, bancos e outros prestadores de serviços financeiros teriam a obrigação de aprofundar as verificações e, quando necessário, comunicar as autoridades. “O material coletado a pedido da TLC já é o suficiente para acender a luz vermelha lá nos financiadores europeus, que têm uma obrigação de ficar atentos em relação a clientes que possam estar envolvidos com crime, seja crime ambiental, seja qualquer tipo de crime”, afirma Ferraz. As denúncias atingem a JBS e instituições financeiras, gestoras, auditorias e um escritório de advocacia, entre elas Barclays, Standard Chartered, Banco do Brasil, Bank of Montreal, Rabobank, ING, BlackRock, EY, KPMG e Loyens & Loeff. Estudo aponta desmatamento de 6,5 milhões de hectares Do total de áreas identificadas pelo levantamento, 3.393.271 hectares estão associados a fornecedores diretos da JBS e outros 3.204.576 hectares a fornecedores indiretos. Na amostra analisada, mais de 80% dos fornecedores apresentaram registros de desmatamento em áreas protegidas, como Reservas Legais e Áreas de Preservação Permanente (APPs). Para chegar aos resultados, o estudo, encomendado pela TLC, cruzou informações de Guias de Trânsito Animal (GTAs), registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dados de monitoramento do desmatamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Como as GTAs registram o transporte de lotes de gado, e não o deslocamento individual de cada animal, os dados não permitem reconstruir com precisão todo o percurso dos bovinos. A própria coalizão reconhece que não é possível afirmar que um animal criado em uma propriedade com desmatamento ilegal tenha sido posteriormente abatido em um frigorífico da JBS. Segundo a TLC, o cruzamento dessas informações permite identificar movimentações de gado entre propriedades e frigoríficos e apontar situações de maior risco de irregularidades. O levantamento também utiliza imagens de satélite para verificar a ocorrência de desmatamento nas áreas analisadas. O que diz a JBS "A JBS lamenta que a campanha da ONG tenha omitido os supostos dados em que se baseiam as alegações contra a Companhia, o que a impede de tomar providências a respeito. Não podemos nos manifestar sem acesso à metodologia do suposto estudo. Desde 2010, a JBS monitora seus fornecedores de gado na Amazônia. Com imagens de satélite e georreferenciamento, a empresa avalia cada transação com base em critérios definidos em protocolo estabelecido pelo Ministério Público Federal. O sistema analisa diariamente mais de 600 mil km² do território brasileiro e bloqueia automaticamente fazendas com desmatamento ilegal, áreas embargadas, sobreposição com terras indígenas, territórios quilombolas ou unidades de conservação, ou trabalho análogo ao escravo." O que diz o Banco do Brasil Ao g1, o Banco do Brasil afirma que não teve acesso à denúncia mencionada nem a eventuais materiais relacionados à suposta ocorrência de lavagem de dinheiro. "Cabe destacar que o Banco do Brasil mantém políticas, procedimentos e controles de prevenção à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo, em conformidade com a legislação e a regulamentação aplicáveis. Em relação aos aspectos sociais, ambientais e climáticos, o BB adota procedimentos para identificar, avaliar, monitorar e gerir os riscos associados às suas operações e relacionamentos, observadas a regulamentação aplicável e suas normas internas. Entre os anos de 2024 e 2025, esse conjunto de mecanismos permitiu ao Banco do Brasil evitar o direcionamento de R$ 44,4 bilhões em financiamentos para áreas não alinhadas às diretrizes socioambientais, conforme divulgado no Capítulo Estratégia de Conservação Ambiental do Caderno ASG dos respectivos anos. O BB também observa o SARB 26, normativo da Autorregulação Bancária da Febraban que estabelece diretrizes para a gestão do risco de desmatamento ilegal na cadeia da carne bovina. Sobre operações específicas, o Banco do Brasil não fornece informações legalmente protegidas por sigilo bancário", diz a empresa, em nota.